BALUARTES DA VILA

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BALUARTES DA VILA

quarta-feira, 2 de março de 2011

O BOM FILHO A CASA TORNA



Após 25 anos de ausência de Santa Maria, minha terra natal, encontrei-me comprometido com meu retorno as minhas raízes. Recusei muitos convites, por não me identificar com as situações e poder escolher entre saudades, lembranças, dores e alegrias. Escolhia a solidão, ao vácuo de meus baluartes, sigilosamente ocultados dentro do coração, valente zelador das nossas emoções.
Sentir a dor da ausência daqueles que me legaram valores, era até então uma situação insuportável. Ir a terra natal e não encontrar gente da Vila, não encontrar Aldorinda Barbosa, Miro da Cuíca, Ozzo, Flávia, Siza, Tilica, Valdir, Tuna, Nonana, Eloy Ricaldi, Gon, Zico, Agenor do Amaral, Maria, Enilda e tantos outros que sumiram, como os trens que alegravam Santa Maria.
Vagões desativados, locomotivas enrugadas pelas ferrugens que o tempo foi deixando, sem a lembrança do lindo passado de glórias.
Mas é numa estação desativada, que a alma do samba da cidadezinha pacata, ganha força e a nobreza dos filhos da terra amada.
A fuligem dessa gente negreira, os brilhos dos trilhos do trem, passa para a imaginação e delas surgem fantasias e delírios. O trem dança levando todos para SantaVila Brasil.
Maria, que não é a santa da cidade, mas é a baiana, que pediu aos seus santos que a levassem na avenida,assim se foi rodando feliz. Maria não estava lá, mas seu espírito e alegrias imortais estavam presentes. Uma nova geração leva o samba na nossa Vila, não mais aquele samba daquele jeito do buraco quente. É samba com cara de gente jovem a tremular como a bandeira da vermelho e branco. Marlene Vidal, ao lado de Jocélia, voltou a carregar a bandeira, com os olhos marejados, ao lado do mestre sala franzino e hábil no cortejar o pavilhão da escola. Cantar na Vila sempre fora meu sonho de menino, tímido, a se emocionar com os trens e a Maria Fumaça que a Vila levou para avenida. Um coral maravilhoso a me acompanhar a cantar perolas! Nào era sonho não, era realização plena de minha felicidade guardada e dada de presente ao olhares saudosos de nosso povo. Lá estavam os descendentes daqueles aos quais eu temia a ausência. Quanto aos meus refenciais, pude senti-los plenamente no arrepio da emoção latente. Estavam todos presentes, a cortina se abriu e não precisavam mais espiar, mas vieram participar da festa, lisonjeados por poderem acompanhar filhos ilustres dessa família sambista. Cau, o Sérgio Barbosa, conduzindo gente nossa perdida pelo formigueiro humano da enorme Porto Alegre. Ele conseguiu o resgate do quebra cabeça da genética do samba, fiel e necessária nesta afirmação de valores culturais. Sinalizar a ausência da comunidade LGBT, nas figuras de Vilmar, Marcelino, Teresão, não ver mais os meus amigos gays da Maré Vermelha a fazer arrastões e tornar realmente a Vila Brasil, a escola que não discrimina ninguém e trabalha a diversidade acolhendo o ser humano na sua real condição de humano. Saudades e lembranças nada mais! Sonhos que ficaram na avenida, diz o samba que mais me emociona e que tive o prazer de cantar para vocês. Que esses meninos e meninas possam fazer diferente, fazer o seu tempo, mas que não esqueçam a nossa identidade, nossos baluartes, que não percam essa diversidade acolhedora das diferenças sociais que enriquecem a nossa cultura popular e fazem da Vila uma grande festa. Cacha, não apareceu neste dia, senti a sua falta, devia estar ocupado com o livro da Vida da Vila, um grande intelectual da nossa vermelho e branco, ao qual eu respeito e admiro. Aproveitem sua sabedoria, busquem-no, ele sabe muito. Essa sapiência não está num livro aberto, mas no zelo da memória. Seu Agenor não estava lá, nem Osmar Amaral, mas estava presente sua alma no carisma e sorriso lindo de sua filha Alcione, a herdeira do nosso Rei percussor do carnaval desta cidade. Valdir não estava, lá, mas impressionantemente seu filho Bem-Hur Barbosa, ainda usa a toda hora a palavra inclusive, marca registrada de Didi, ou seja, igualzito ao pai. Meu Deus! Paro de delirar com a Vila e me dou conta que realmente somos imortais! S'imbora Vila!!!