Há 28 anos atrás, num dia 2 de abril como hoje, nós brasileiros, perdíamos a maior expressão da nossa música popular brasileira: Clara Nunes.
Estava na casa de minha tia, quando uma de minhas primas a Maninha, chegou e me disse: morreu Clara Nunes! Aquela dor, era uma dor idêntica a dor sentida por um ente-querido, um consangüíneo nosso, que parte assim, sem dizer adeus! Meu sonho e atormentação com meus pais sempre fora um dia ser apresentado a Clara Nunes, queria dizer um oi Clara, que bom que você existe.
A matriz africana, vivenciada e explicitada de forma nobre por Clara Nunes , foi sem sombra o maior afago à cosmovisão africana no Brasil, que já tivemos no cenário musical . Clara Nunes mostrou ao mundo o quanto é bonito ser negro. O quanto o sangue negro misturou-se ao mosaico cultural e deixou o Brasil um povo que sobrevive as adversidades cantando, mesmo que seja de dor! Mestiça, Clara ficou a vontade com seus cabelos crespos, suas roupas de religião, seus colares de contas e seus pés nus e muito bronzeamento para sua cor morena se tornar negra.
Esse resgate de identidade negra, somou-se a uma voz perfeita na entonação de cultura afro-brasileira, com expressões e mapeamentos musicais de resgate desta identidade, e foram despencando no cenário musical brasileiro jongos, maracatus, frevos, congadas, sambas de enredo, samba canção, toadas, toques de candomblé, folclore e muita fé no que fazia. Isso fez a auto-estima do povo negro, discriminado na sua cultura, subir e eleger Clara Nunes a nossa maior cantora, isso no Brasil negro, que a consagrou nas vendagens de discos. Clara se tornou um fenômeno, o mesmo povo que ela acarinhava com suas canções, era quem fazia dela uma rainha. O outro Brasil não negro,racista, discriminador, abastado, das elites, é óbvio escolhera outra cantora para representá-lo, mas teve que render-se ao talento da cantora caipira, vinda do interior e que em plena ditadura militar entoava cantos de louvor e hinos de luta como Canto das três raças.
O congraçamento das etnias brasileiras, e o sonho de equidade social, se manifestavam na cantora, quando sem esquecer suas origens, ia em busca dos compositores populares e se a música não arrepiasse, e não tocasse primeiro seu coração, ela não gravava. Seguia os referenciais do povo entre morros, terreiros,Continente Africano e o mundo afora, na busca do popular sem ser popularesca. Furava o bloqueio masculino e tornou-se um fenômeno de vendas. Vendia milhões de discos. No país do carnaval, nunca Clara teve em vida um especial na maior TV brasileira. Levou essa mágoa para a eternidade. Essa invisibilidade da representante autêntica do povo brasileiro, só foi sacudida pela morte prematura da artista. E dai? Daí que depois que Clara morreu, mais uma vez o mundo do poder, não negro, voltou-se para lágrima e dor do povo brasileiro, mais como manchete da confusão do enterro que reuniu mais de 50.000 pessoas no Rio de Janeiro, do que verdadeiro respeito pela artista,pela mulher de fibra, determinada,que nunca traiu seus princípios do cantar como missão, em forma de oração, lenitivo necessário para revelar a face de um povo, sua leveza, de rara beleza, e fé na sua grandeza.Não era atoa, o apelido de Sabia, quantas vezes observamos esse pássaro a cantar, com sol ou chuva lá está ele. Clara realmente, pássaro cantante. Na Vila,temos a nossa eterna Clara Nunes, na figura de Marlene Vidal.
Marlene coordenava a ala das Baianas, saia de Porta Bandeira, mas decidira naquele ano que Clara foi embora,que ela seria Clara. Partiu dela essa idéia. Vamos homenagear Clara Nunes! Eu vou ser a Clara! Marlene aglutinava as pessoas, sempre com um sorriso franco no rosto e sua empatia com a gente uma gurizada, que atormentava a casa do Miro da Cuíca e eles sempre muito receptivos, com os grupos de dança afro que criávamos, com os grupos de capoeira que nasciam dentro da casa do Miro e da Marlene. Maravilha!
Víamos em Marlene, uma Clara Nunes na Vila, atuante, faceira, falando alto, alegre e principalmente amando a Vila. Naquele ano um Enorme quadro de Clara Nunes entrou na av. Domingos de Almeida. Foi de arrepiar!
Nós maioria jovem nessa ala, estávamos preocupados com Marlene e a possibilidade dela não desfilar como Clara Nunes, pois ficou acometida de uma conjuntivite que tentava ofuscar o brilho da homenagem a Clarinha. Mas Marlene superou-se, foi, brincou na avenida de pés descalços, vestido branco e flores no cabelo, estava linda! Olha a Clara Nunes, gritava o povão!
Enquanto as meninas eram as Clarinhas, os meninos eram os Filhos de Gandhi. No outro ano, a coordenação da Ala Clara Nunes, ficou a meu encargo. A Vila prosseguiu com a ala Clara Nunes, até eu vir embora para Porto Alegre. Recebi muitas correspondências do pessoal do Fã-Clube da Clara,ao qual criamos em Santa Maria, e que mantinha a Ala Clara Nunes na Vila Brasil. Eu não podia voltar para Santa Maria. O trabalho cresceu em Porto Alegre, precisava redirecionar minha
Vida e os meus propósitos espirituais me ligaram a Clara, mais intensamente, do que um dia poderia imaginar. A cantora me pediu em mensagem espiritual, que auxiliasse as crianças. Posteriormente viajei a São Paulo para conhecer Nadege, senhora que tambem recebera a mensagem, que fora entregue para três pessoas no Brasil: Nadege, a irmã mais velha de Clara, sra Maria Gonçalves, e eu. Assim, inicieu um trabalho voltado para as crianças. Minha vida mudou a partir desta concepção de caridade com as crianças. Foi o que fiz e me senti muito feliz com essa missão. Hoje,meu terreiro cuida das crianças da comunidade do Morro da Polícia através do Projeto Social Ola Si Bó. Tenho Clara, como uma espécie de mentora, um ser de luz, que é um paradigma de bondade e fé. Logo Clara que não conseguiu ter filhos em vida. Hoje muita criança,através da nossa querida Associação Clara Nunes, pode ganhar material escolar, pode receber alimentação, participar de atividades lúdicas e culturais dentro de um terreiro que faz serviço social. Essa,para mim, é a grande lição do espírito de Clara Nunes, que nunca esqueceu a criança pobre que fora um dia; que mesmo sendo a maior cantora popular que este pais já conheceu, nunca deixou de ajudar e queria encerrar a carreira trabalhando numa creche. E trabalha no mundo espiritual, conforme minha crença, nos auxiliando muito. Clarinha, era uma mulher que distribuiu e continua distribuindo muito amor... nosso projeto dentro do terreiro, é uma prova disso, ela continua viva, emanando seu amor pelas pessoas, principalmente as crianças pobres e desamparadas desse nosso Brasil.
Sua benção Mineira Guerreira, filha de Ogum com Iansã!Samba enredo da SENZALA (Escola de Samba extinta dos anos 80)
CLARA NUNES
Um dia o mar revolto fez silencio
Para escutar o samba cantado na areia
Hoje o mar revolto está chorando
Lamentando a ausência da sua sereia
A lua o mar revolto e as estrelas
Abrem alas neste enredo de saudade
Clara Nunes vai sambar eternamente
No grande carnaval da eternidade
Clara Clarinha
Clara Sabiá
Canta o samba enredo da saudade
E acende a passarela do luar...
